Cadernos de Saúde Pública (Dec 1991)
Fatores culturais associados à doença da reclusão do alto Xingu (Brasil Central) Cultural factors associated with the seclusion disease in Alto Xingu (Central Brazil)
Abstract
Sob uma abordagem antropológica da dimensão simbólica da doença, o artigo enfoca as representações sobre a síndrome característica do ritual da reclusão pubertária entre indígenas da região do Alto Xingu (Brasil Central), em uma perspectiva comparativa com a abordagem clínico-epidemiológica clássica. A categoria tradicional da medicina indígena é considerada como ponto de partida para o contraste com a categoria da medicina ocidental, identificada em alguns casos da síndrome como uma neuropatia periférica de origem possivelmente tóxica. O tratamento epidemiológico dos dados sobre a categoria tradicional evidencia relações com acontecimentos de ordem cultural, afetos à conjuntura sócio-política e das relações de contato. Essa "síndrome cultural" representa um desafio aos métodos utilizados pela medicina ocidental moderna, em particular para a abordagem clínica e epidemiológica. Finalmente, os autores apresentam consideração de ordem metodológica, explicitando aspectos de dimensão cultural específicos da sociedade moderna, contidos nos procedimentos das disciplinas científicas envolvidas.This article presents an anthropological approach to the symbolic aspects of the disease, considering traditional representations about the puberty seclusion syndrome which affects adolescent indians from the Upper Xingu region (Central Brazil), in a comparative perspective with the clinical-epidemiological approach. The traditional nosological category and its etiological implications in indigenous medicine and culture are contrasted with the western medical category - a peripheral neuropathy, possibly of toxic origin - identified in some cases of the syndrome. An epidemiological analysis of the data collected from the traditional point of view shows relations with events of cultural origin, associated with social and political contexts and with the nature of cross-cultural relations. Moreover, this culture-bound syndrome presents some methological issues for western medicine, particularly for biomedical and social-epidemiological approaches. Finally, the authors make explicit some cultural assumptions characteristic of modern western society, underlying the procedures used by the scientific disciplines involved.